Prefeitura insiste em impor data à lenda do “Boi Falô”

A lenda do Boi Falô não “surgiu” em 1888, como, por mais um ano a Prefeitura de Campinas manda seu “ofício”, na forma de release, – como faz todos os anos –  para as principais mídias de Campinas e São Paulo, contando uma versão errada da lenda  ou que era desconhecida  em Barão pelo menos até os anos 1980, apesar de diversos pesquisadores – inclusive de renome –  já terem demonstrado que a lenda – como qualquer lenda – não foi criada ou “surgiu” em um ano especifico, e nem mesmo tem um escravo especifico. Mas ao contrário, essa versão do centenário “surgiu” na primeira festa, realizada pelo então subprefeito Atílio Vicentin, familiares e  amigos no dia 1º de Abril de 1988 – dia da mentira aliás – com o apoio do comerciante Gilberto Antoniolli, proprietário do Supermercados Barão. Ambos eram candidatos a vereador na época.

Historiadores, filósofos, sociólogos, antropólogos e jornalistas já descreveram inúmeras vezes a versão da lenda  mais antiga e tradicional para os baronenses e o  núcleo central mais conhecido e referente . E a Prefeitura continua impondo a Barão  a versão de Antoniolli e Vicentin, que era desconhecida em Barão até a realização da 1a Festa, com a invenção inusitada na época de que fazia 100 anos – e que deixou muitos baronenses perplexos.

Jolumá Brito, por exemplo, considerado pela tradição histórica campineira o maior e mais importante historiador campineiro, foi o primeiro a publicar no Diário do Povo em 30 de junho de 1973, a primeira versão registrada da Lenda. “Numa sexta feira “maior” um “caboclo mandrião e trabalhador” fora mandado até um pé de cabreúva, no local “Capão do Boi”, para recolher bois para o curral e este voltou com a história de que o boi havia falado de que era o dia da morte de Cristo.  E Brito ainda faz questão de deixar claro que o escravo Toninho nada tinha a ver com essa historia.

Anos depois, em 1977 o repórter “correspondente” Allan Gomes (que foi o primeiro jornalista que publicou e escreveu sobre a história de Barão Geraldo )  publicou no mesmo Diário do Povo uma entrevista com dona Albertina Martins, esposa de José Martins, na época com 85 anos (nascida em 1892) e que foi uma das primeiras a estabelecer uma venda em Barão, junto com o marido , em 1925. Conforme dona Albertina “numa sexta feira da paixão uma fazenda do local (não falou qual delas) “resolveu usar os escravos para o trabalho normal”. No caso foram mandados recolher bois para colocar na canga. E quando o boi falou, um dos escravos voltou para a fazenda apavorado contar ao capataz mandante o que aconteceu: E deixou claro: “Não morava aqui ainda. Mas quando me mudei, a lenda ou a história era contada como se fosse um fato real.” – contou dona Albertina.  Ou seja, novamente, nenhuma data ou nome de escravo.

Anos depois , o juiz de paz e ferreiro Hélio Leonardi  deu outra entrevista ao repórter Ronaldo Faria, também para o Diário do Povo, publicada em 2 de fevereiro de 1983. Seu Hélio é considerado por eles “quase um historiador de Barão Geraldo” pois além de ter sido seu primeiro líder (o primeiro a organizar a implantação de luz em 1935 e depois diversas outras lutas políticas, o principal time de Barão, um clube, o distrito etc.)  tinha na época uma pasta com diversos documentos, datas importantes e históricas para os baronenses.

E Ronaldo escreveu: “A lenda, segundo seu Hélio, vem ainda do tempo da escravatura. “Existia um Capão, onde hoje é a entrada da Unicamp,  foi quando um administrador da Santa Genebra mandou um escravo ir ao Capão apanhar um boi pra um trabalho.” E ao chegar ao Capão se deparou com o boi que falou e voltou numa carreira danada” pra contar ao chefe. Seu Hélio ainda lembra a Ronaldo que no início era uma ofensa para os baronenses afirmar tal “calunia” E ainda conta outra versão  que diz que quem falou realmente foi “outro homem escondido atrás de uma árvore”. È aqui que seu Hélio foi o primeiro a dizer que a Fazenda Rio das Pedras era um “Patrimônio Cultural” de Campinas.

Em 1984, o filósofo e professor da Unicamp César Nunes – na época estudante – ganhou menção honrosa num concurso nacional de monografias promovido pelo Ministério da Cultura em 1984 com sua monografia: “A Terra do Boi Falô” em que transcreve uma entrevista gravada com o senhor Osvaldo de Oliveira  – conhecido como “Vadão de Oliveira” – que conta a versão de que “um escravo ou trabalhador” é mandado por um capataz buscar um boi no Capão do Boi  para colocar num carro de boi . O escravo ouve o boi falar e corre para contar ao capataz e o próprio capataz vai ate o Capão e também ouve o boi falar.

Em entrevista ao Correio Popular em 1997 César Nunes disse que era pesquisador dessa lenda e do folclore de Barão “….há 15 anos ouvindo antigos moradores, lendo o Livro de Tombo da igreja, e nunca ouvi falar que a história tem data ou personagem com nome”. Sua única dúvida é se o boi teria falado para um escravo ou para um imigrante italiano: “Um escravo não tinha o poder de decidir se trabalharia numa sexta santa ou não, mas um italiano tinha. Os antigos diziam que era um escravo mas não o Toninho que estava envolvido em outra lenda, em que ao proteger o Barão levou um tiro e teria perdido a perna. Na verdade existe uma confusão de personagens . O escravo da lenda  não tem nome” – declarou o professor Nunes.

Há também o estudo do Padre Luis Roberto Benedetti que é sociólogo, sobre a cultura popular tradicional de Campinas.

E ainda em 1989, o ex lavrador, inspetor de quarteirão e barbeiro Antônio Ferrari, na época com 69 anos, deu entrevista ao Correio Popular falando de Barão e contou outra versão que também era contada em Barão: “Um trabalhador do campo chegou no pasto no Capão do Boi (início da Avenida 1) para pegar seu boi e iniciar seu trabalho numa sexta feira santa e boi chateado falou que não era dia de trabalhar. Apenas isso. Porém  deixou claro sua insatisfação – como a de muitos antigos na derrubada das árvores centenárias do Capão do Boi – que era um lugar que dava medo quase sagrado para os baronenses:  “Deveriam consultar a população antes de tomar uma atitude dessas. Eles (os prefeitos) costumam dizer que nós não apitamos nada mas na verdade quem os colocou na prefeitura  fomos nós”.

Primeira Festa : no Dia da Mentira?

Mas em 1988 às vésperas de realizar sua primeira festa , Gilberto Antoniolli consegue publicar sua versão de que a lenda” foi na verdade um  fato histórico que ocorreu 2 meses antes da promulgação da Lei Áurea. (Isto é. ocorreu em março de 1888). E no dia 1º de Abril, dia em que foi realizada a primeira Festa do Boi falô o Diário do Povo anuncia a festa que comemorava o “centenário” da lenda de que “O Barão” mandou o escravo “Antoninho” atrelar um boi ao arado!! Pelo menos fala do Capão mas DE ONDE TIRARAM ESSA VERSÃO totalmente sem sentido e que nunca tinha sido dita antes? O senhor Antônio Moda, nascido na Fazenda Rio das Pedras, diz que ambos eram candidatos a vereador e para angariar votos, mutilaram a lenda, “E ainda cortaram o cachorro do escravo que latiu pra o boi, da lenda original. Realmente nunca ouvi falar em 1888 e centenário. Só que era na época da escravidão” – disse seu Antônio.

Durante todo os anos 1990 essa versão do suposto “centenario” inventada foi sendo repetida pela mídia nas duas outras gestões de Atílio Vicentin (PSDB) que por três vezes  – por 16 anos – foi subprefeito de Barão. EM 1996 César Nunes propos a inclusão da Festa do Boi Falô no Calendário oficial de Campinas – contando uma versão que não sem data nem nome de escravo – como foi oficialmente registrado na Câmara pela lei 9027 em 1996.

Por diversas vezes várias pessoas – como César Nunes, os párocos e outros subprefeitos – negaram essa história de centenário e  reafirmaram que a lenda não tinha uma data que ocorrera nem o nome do escravo. Mas Atílio  e diversos jornalistas sobretudo do Correio  continuaram fortalecendo-a .  E durante os governos de Toninho e Izalene,  – provavelmente por ocasião dos 50 anos de Barão – essa versão foi tornada “oficial” pela Secretaria de Cultura.  Sem a menor consulta aos historiadores e pesquisadores locais.

Durante os anos 1990 dois pesquisadores publicaram pesquisas sobre a historia de Barão. E tanto o historiador  Warney Smith Silva, (em sua monografia defendida em TCC no IFCH em 1996 ) como a professora Rita Ribeiro, proprietária da escola de linguas  In Touch (em seu livro publicado em 2000) nada falam em ano em que a lenda surgira ou em escravo Toninho. Ribeiro conta a versão contada pelo ex administrador da Santa Genebra Ari de Salvo, de que um antigo capataz fazenda mandara o escravo pegar o boi que se recusou a levantar e falou que era dia santo para o escravo e para o capataz. Mas não cita o nome do escravo ou do capataz. “Porque não vinha ao caso” – como diz.

Warney Smith chegou a entrevistar 22 antigos moradores sobre a historia do distrito em que alguns deles contaram a lenda do Boi que não era o foco principal de sua pesquisa . E todas as gravações hoje pertencem ao Laboratório de História Oral do Centro de Memória.  “Dona Antônia Vicentin Leonardi, na época com 78 anos, contou que o povo falava (“os antigos”, como ela dizia) que um capataz mandou um escravo ir pegar um boi no Capão do Boi e o boi não quis e falou para ele que não era pra trabalhar. E quando ele avisou o capataz que também foi ao Capão, o boi falou pra ele também.  Dona Maria Páttaro contou a mesma historia. Outra versão foi contada por seu Humberto Barbieri e por Nicola Pacci de que o patrão  ou capataz mandou um “trabalhador preguiçoso, que não queria trabalhar” ir pegar o boi no Capão do Boi e esse recusou dizendo ser sexta dia da morte de Cristo. Outros contaram versões parecidas, alguns dizendo que foi “no tempo da escravidão” e a maioria falando que era um capataz, um escravo e um boi. Mas nunca ninguém falou em  1888 ou em Toninho ou no Barão”.

Segundo o historiador , a oficialização dessa lenda como 1888 tira totalmente o sentido das lendas rurais tradicionais antigas,  que atribuíam manifestações mágicas ou manifestações do divino aos elementos da natureza, como as assombrações, os fogos-fátuos (boitatá), ventos, animais, chuvas, barulhos, vultos, para uma sociedade que vivia sem luz elétrica, transporte, nos  campos no meio do mato,   e tinham forte religiosidade popular, iletrada, que era uma tradição, isto é era passada de pai para filhos. Que é o real sentido da palavra “tradição” ou “tradicional”: heranças transmitidas entre gerações”  – declarou    Se a versão de 1888 fortalece a “resistencia escrava” para não trabalhar , é mais uma forma de transformar a lenda num fato real histórico, porém com um sentido moderno , atual , como se fosse possivel entender isso como “luta de classes”. E que foge completamente do sentido tradicional e demiurgico da lenda como de qualquer lenda.

Para Smith A impressão que fica é que foi feito uma espécie de “acordo” com a prefeitura – integrando a história do escravo Toninho, que é famosa em alguns lugares de Campinas, especialmente na região sul da cidade, e tentar incluir parte de movimentos políticos de Campinas,  num projeto de integração com a cidade, e de desmantelar e esquecer a historia de lutas que sempre foi forte dos baronenses por construírem o lugar onde vivem, e  lutarem  pelo progresso capitalista justamente para crescerem e melhorar a vida deles e suas famílias.  “fazer Barão Geraldo crescer” como me disseram vários dos entrevistados e que era uma meta quase que comum entre os antigos baronenses. E tentar esconder  e esquecer essa história é altamente criminoso ao meu ver.”

Recentemente porém , ja nos anos 2000 , surgem outras versões mais consensuais, que dizem que a historia do Boi Falô ocorreu no início do Seculo XIX  (quando o Barão nem havia nascido) e portanto tambem não é o mesmo Toninho  como descrita pela reporter Delma Medeiros ao Correio Popular em 2003

Outra versão é contada por Jairo Roberto para o jornal Barão em Foco em 2011, em que seu avô o  italiano Gino Bravi, contava que o boi falô para um “menino escravo” que é o escravo Toninho que em 1870 quando Geraldo chegou ele já tinha mais de 60 anos e já era capataz da Fazenda. Ou seja , como na versão anterior o fato só poderia ter ocorrido no ínicio do Seculo XIX , por volta dos anos 1830 quando Toninho ainda era um menino. São portanto duas outras versões  que demonstram que a versão atual da Prefeitura é absolutamente falsa e que  desbancam totalmente a concepção de “ano da abolição

http://baraoemfoco.com.br/barao/barao/forumconsultivo/boi-falo.htm

 

ANTIGAS FONTES 

PRIMEIRO REGISTRO DA LENDA DO BOI FALÔ – DE JOLUMÁ BRITO , PUBLICADA EM 1973, AINDA NA ÉPOCA DAS “SEMANAS DE FOLCLORE DE CAMPINAS” QUE NUNCA FALOU DA LENDA – QUE ERA DESCONHECIDA , ATÉ ENTÃO,  EM CAMPINAS.Joluma-300673

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